domingo, 30 de setembro de 2007
De coração pequenino e apertadinho
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num minúsculo ponto preto, outro coração também não caberia. esta noite, só me apetecia ajoelhar e chorar. há imagens absolutamente perfeitas, e o segredo do American Beauty reside numa delas: ter o coração tão cheio de comoção que parece um balão de ar quente prestes a rebentar. esta noite, só me apetecia ajoelhar e chorar. pensar sempre em demasiadas coisas ao mesmo tempo. o universo infinitando-se progressivamente, crescendo como se respirasse - inspiração, expiração, inspiração, expiração - como uma harmónica. e dentro dele, todas as coisas acompanhando essa respiração. os encontros, as paixões fulminantes, o arrefecimento, os desencontros, o afastamento, a queda para os escombros da memória, e eis depois, glorioso, o movimento reconciliador da inspiração: o regresso. das pessoas, das palavras, dos lugares conhecidos. respirando com o universo, todas as coisas regressam. e de comoção, esta noite, só me apetecia ajoelhar e chorar. no regresso a casa, a noite é um lugar semelhante ao corpo, inflamado, em chamas, afundado no breu. no carro, a Amy Winehouse a gritar you go back to her and I go back to black. só me apetecia ajoelhar e chorar. serpenteando através dos campos, a estrada nocturna é um lugar desabitado. poderia imaginar-me perdida, não saber de mim, se fingisse por um momento que não são estes os mesmos caminhos de todos os dias. na estrada, um cãozinho enroscado para dormir, que eu tive vontade de acolher, dar colo, cobrir com o espaço côncavo do meu corpo, porque um coração pequenino e apertadinho precisa sempre muito de dar um colo a alguém. só me apetecia ajoelhar e chorar. não ter palavras, saber que não há uma palavra que baste, que circunscreva, como um abraço, aquilo que designa. burilar, como uma pedra, a comoção. não ter um nome. se eu pudesse, esta noite ajoelhava e chorava.
18 de Maio de 2007 Etiquetas: a pedra de Sísifo, little black spot, noite, prosa |
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19:20
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quinta-feira, 30 de agosto de 2007
a intacta ferida
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a noite é uma pedra negra o peito aberto uma estrada que ninguém trilha
9 de Janeiro de 2006 Etiquetas: a intacta ferida, noite |
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19:00
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sexta-feira, 13 de julho de 2007
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tapete de estrelas
ainda me dói o passo indeciso rumo à floresta negra, onde tu não me segues, como dói o pé descalço sobre a brasa.
26 de Outubro de 2005Etiquetas: little black spot, noite, prosa |
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19:06
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you're the night, lilah
a noite é uma floresta. o meu peito é um ramo de cardos. estendo-me na escuridão como quem se deita no meio das árvores. dos distantes lugares do vento chegam-me vozes do interior da terra. cegam-me as memórias recortadas destes labirintos de paredes despojadas.
25 de Outubro de 2005Etiquetas: little black spot, noite, prosa |
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19:05
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dicionário do silêncio: noite
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19:01
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18:55
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sábado, 7 de julho de 2007
das águas escuras que habitam o fundo dos poços
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ainda que a noite me habite e haja demasiado mundo à minha volta há ainda as coisas simples as sardinhas assadas com pimentos o perfume do jasmim rente aos muros o bafo quente da tarde no pico do verão um rapaz de olhos verdes de quem eu gosto
corpo a corpo enfrentamos os lugares do medo.
9 de Maio de 2005Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, noite |
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18:34
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rouge est la couleur du sang #2
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18:17
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nos últimos lugares do medo
quando a noite se avoluma e o frio te toma pelos pés desprotegidos o medo - ou o cansaço - sobrevém
escuta a terra na montanha onde o silêncio pesa
acreditas que as árvores se comovem com os teus passos?
17 de Novembro de 2004Etiquetas: little black spot, noite, o ponto de vista dos demónios |
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18:15
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o que dói
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a noite arde numa claridade subterrânea, o som dos meus passos atravessa-a com um ritmo certo, de pancada forte na terra. não me atrevo a um movimento. qualquer coisa que excite a fragilidade do silêncio. por todo o lado, tudo dói. sou eu ou é o mundo, cheio de bolhas?
14 de Novembro de 2004Etiquetas: a intacta ferida, little black spot, noite, prosa |
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18:12
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a matéria simples
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duas ânforas de barro num canto silencioso o rumor da água perfumando a noite escura.
23 de Setembro de 2004Etiquetas: little black spot, noite, reinos |
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18:07
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penumbra
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afinal era um sopro, uma breve agitação ciclónica, mas sobreveio a noite e o mundo está de volta ao seu lugar. no meu peito há uma barragem. deste lado das comportas, repõe-se o sossego possível.
19 de Setembro de 2004Etiquetas: little black spot, noite, prosa |
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18:05
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the promised womb
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bem sei que somos muitos os que não dormem, aqueles que a noite se recusa a acolher, que não temos palavra que nos abrigue nem corpo que nos proteja. enfrentamos assim, despidos, inequivocamente frágeis, a presença mais próxima da morte. o desejo, a luz, é um engano. à hora nocturna, o meu peito é um abismo inflamado de pavor.
4 de Agosto de 2004Etiquetas: a pedra de Sísifo, little black spot, noite, prosa |
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17:53
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a noite em chamas
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pode ser agosto, e pode ser que a noite arda, pode haver o silêncio e a inquietação dos lugares escuros e a vontade do outro, mas nem as palavras nos sustentam quando a insónia se instala, e é sempre, mas sempre do medo que se fala. ainda assim, a única coisa certa são as árvores lá fora, quietas e assombrosas, o rumor de folhas quando caminhamos debaixo delas. há uma palavra inflamada em mim. mas ainda não é hoje que digo.
4 de Agosto de 2004Etiquetas: a pedra de Sísifo, little black spot, noite, prosa |
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17:52
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sexta-feira, 22 de junho de 2007
quiet nights of quiet stars
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está calma a noite, como é próprio do fim de Junho, na silenciosa dilatação das sombras até aos cantos da casa. mesmo à janela fechada pressinto o rumor das árvores. o ardor do solo. o grande olho amarelo dos girassóis sob os quais pasmo como se fossem templos. está calma a noite, pacífica, atlântica. o aperto no peito é o mesmo de sempre, constrangimento de saudade, é o não-aqui do teu corpo, e a promessa de um dia limpo no azul-negro que se estende sobre as ruas. qualquer coisa em mim tardou e eu atrasei-me para o verão. foi este o meu dia mais longo, de noite feita apenas para brevemente sonhar.
28 de Junho de 2004Etiquetas: little black spot, noite, you must believe in spring |
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17:53
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a noite pela terra
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ao fechar as portadas , a noite penetrou deixando no varandim os incidentes do dia, dos dias. é em horas assim que a noite chega como um sopro, vinda de lugares distantes, e nos alcança com a proximidade das coisas conhecidas, e quando nela assim entramos não há lugar para o sono, porque a noite penetra em todos os cantos de casa e enche-a do seu perfume em que, rendidos, reconhecemos a substância de um reino longínquo a que estamos prometidos.
3 de Junho de 2004Etiquetas: little black spot, noite, prosa, reinos |
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17:45
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post-scriptum
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Era preciso escrever, mesmo apesar do cansaço, e da pesada fibra nocturna da penumbra. Escrever para resgatar o tempo que passa, os momentos que adiei para depois, escrever como quem procura salvar alguma coisa, sabendo bem — como Duras — que a escrita não salva de coisa nenhuma. E é verdade que os dias de sol não servem para escrever, aprendemos a guardar as palavras na margem da boca, para depois, porque a primeira urgência é apenas fruir do lento ardor do solo. Por isso se guarda este ofício para as noites, quando as sombras se abeiram da insónia, mesmo quando não há medo, mesmo quando há só silêncio pacífico. Respiro o azul-negro das horas tardias já em pressentimento do verão, a partir de agora sei que a minha estação está próxima e que em breve desenrolarei os membros entorpecidos, como asas guardadas pelo inverno. Acontece que voltei a ver com frequência o rosto diluído da mulher junto ao cais, o seu vestido branco ondulando ao sabor do vento, e sei que naquele ar há um perfume de magnólias. O mar está próximo, e sei que se caminhar, se a vir dar um passo, há-de ir pelo meio das ruas estreitas de uma vila pequena em direcção à praia, onde os muros brancos de cal ardem sobre o sol, e os amantes que passam descansam o medo à sombra das amoreiras.
27 de Abril de 2004Etiquetas: atlântica, escrever, little black spot, noite |
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17:22
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preparação
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O pátio está silencioso ao fim da tarde. Circundado por vastos cachos de rododendros e jasmim, que emergem da cal dos muros, é o lugar exacto do sol na hora do poente. Do outro lado, a estrada negra e deserta. Nenhum ruído perturba a quietude da cena. Nenhuma voz atravessa a cidade até à praia. Lentamente, adensa-se a penumbra — quase táctil — e azulam-se as sombras, em breve a noite riscará de negros contornos os corpos que se passeiam à beira-mar. Neste silêncio, amplo e imóvel, se acontece o medo é só porque alguns olhos, adentrando a escuridão, se parecem com estrelas longínquas.
21 de Abril de 2004Etiquetas: little black spot, mediterrânica, noite, prosa |
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17:20
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do silêncio ao fundo
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são as sombras que flutuam como pássaros pelo fundo dos teus olhos e a noite principia no círculo negro que encerram
estar assim no silêncio da incerteza a única forma possível para o amor desconhecer ― mesmo assim tactear ― que perigos se escondem no escuro das profundezas.
19 de Março de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, noite |
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17:03
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quinta-feira, 21 de junho de 2007
da noite interior
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1 no negrume do quarto a noite pesa
2 tardia sobre os ombros descompostos de cansaço a hora hesita e circunda a frágil matéria das palavras
3 entre sombras o nosso corpo se constrói
na ferida do silêncio
4 amanhã ainda seremos vivos sob a medida precisa do sol.
19 de Fevereiro de 2004Etiquetas: little black spot, noite |
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21:43
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