segunda-feira, 29 de outubro de 2007
suposição
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tu poderias ter tido um corpo tu poderias ter um corpo eu poderia ter sido o teu corpo se me tivesses permitido o engano de desenhar-te com a ponta dos dedos saber-te-ia de cor como se fosse cega e a tua figura perfeita teria sido um lugar das minhas mãos um lugar a queimar as minhas mãos e teríamos ardido nesse incêndio ateado pelo cheiro da tua pele
como eu teria gostado de saborear esse engano na ponta dos dedos em carne viva jogar à cabra-cega com os demónios da sede como eu teria gostado de tudo isso
não fora tão rápido o cavalgar da morte sobre o desejo não foras tu apenas um lugar impossível nos meus olhos. Etiquetas: o ponto de vista dos demónios, para uma anatomia das palavras |
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us people are just poems
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dizer de um livro: como um corpo carregando a anatomia íntima das palavras
era noite escura tinha os pés frios uma boca cravada sobre o esterno na mesinha de cabeceira a companhia incendiária de Al Berto no chão a caixa vermelha das preciosidades
um gesto imprudente atira para o vazio a minha aflição desajeitada
caiu-me o Medo para dentro do poço do coração.
29 de Outubro de 2007Etiquetas: o ponto de vista dos demónios, para uma anatomia das palavras |
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*?*
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o ponto de vista dos demónios
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na insónia, compensa ter o benefício dos livros. não acender a luz, não mover um único músculo, não arrancar o corpo ao entorpecimento da queda. ter, no silêncio, a memória de qualquer coisa extraordinária.
19 de Outubro de 2007Etiquetas: o ponto de vista dos demónios |
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domingo, 30 de setembro de 2007
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o ponto de vista dos demónios #3
há Dylan Thomas por todo o lado, impregnado em cada fibra, como um perfume subtil: estou a entrar depressa na noite escura. sem amuletos, sem protecção, sem um segredo que nos guarde do sono acordado dos demónios. a noite é uma floresta negra, onde gigantescos braços como tentáculos nos alcançam e não nos seguram.
5 de Maio de 2007 Etiquetas: little black spot, o ponto de vista dos demónios, prosa |
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Lunar Caustic
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quinta-feira, 30 de agosto de 2007
assim como corpos em chamas
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19:22
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verão emparedado
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comoalgo malévolo se aproxima - alguma coisa fermenta, desconhecida, silenciosa. tem o peso deste calor excessivo, do inferno que é esta terra onde nenhum sopro é possível. desumano não é o silêncio, é a inimutabilidade.
11 de Julho de 2006 Etiquetas: little black spot, o ponto de vista dos demónios, prosa |
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19:15
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sábado, 7 de julho de 2007
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nos últimos lugares do medo
quando a noite se avoluma e o frio te toma pelos pés desprotegidos o medo - ou o cansaço - sobrevém
escuta a terra na montanha onde o silêncio pesa
acreditas que as árvores se comovem com os teus passos?
17 de Novembro de 2004Etiquetas: little black spot, noite, o ponto de vista dos demónios |
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18:15
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o ponto de vista dos demónios #1
anoiteceu e eu não me apercebi. deveria ser verão, mas as horas faltam já aos dias, como se não fosse já suficiente degredo que lhes falte o sol. obscureceu. ainda assim, uma nova linguagem em mim se engendra. encontro-me próxima de coisas que não supunha tão familiares. a casa, os livros, os cantos escuros que tudo sabem mas silenciam, a vontade de caminhar descalça pelo jardim, de ser novamento criança com os joelhos esfolados a procurar rente aos muros o perfume das madressilvas. e não sabia — ou não recordava — que estaria tão próxima da chuva. depois da chuvada, o dia nasce limpo, o cheiro que se levanta é o da terra lavada, o mundo aureolado de pureza renovada. por isso gosto do orvalho sobre as folhas, do verde vivo das árvores alimentadas, subitamente gosto até da neblina branca sobre a praia, da chuva atirada contra as vidraças entre rajadas de vento. algo em mim se aproximou do temporal. e já não tenho medo nem tenho cuidado. nunca me foi desconhecida a abissal significância da água, o negro silêncio das profundezas e os monstros ou demónios que as habitam, a límpida claridade da superfície e a nítida transparência da sua frescura sobre as feridas. sempre soube que na água me reencontraria, e é por isso que hoje não me entristece a chuva nem o vendaval. sou um ser do outono e resigno-me. mas dizer de um elemento a que pertença seria de um minimalismo inverosímil. não sou do ar, nem da terra, nem da água, nem do fogo, mas de todos eles, e em raros momentos como este, apanhada desprevinida no interior da casa, sinto justificada a minha presença na natureza.
20 de Agosto de 2004
o ponto de vista dos demónios #2
this wasn't supposed to happen. aprendemos a escapar à aflição das memórias, refazemos a fibra dos sentimentos, fio por fio, até que um novo tecido se forma, e não há senão uma vaga memória de uma falta indistinta, estrangeira. curioso é que, da cinza e do pó, outras memórias se soergam, assombrosamente vivas, como brasas que acendem a noite em chamas. estes demónios, velhos conhecidos, há quanto tempo os não via. lembro-me de ti. e outra falta, inesperada, cresce e ocupa o espaço todo. silencio, mais uma vez, a palavra proibida. this wasn't supposed to happen.
24 de Agosto de 2004Etiquetas: little black spot, o ponto de vista dos demónios, prosa |
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17:58
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inexctricabilis #2
não sei escrever a palavra que não seja triste. tenho um demónio por companhia, que dorme há dias e já não me fala do fundo do abismo, nem eu ouço os seus passos surdos na escuridão do quarto. só sei circunscrever este silêncio, só sei esticar os dedos para os muros deste exílio. não sou eu, é só o hábito que me fez triste.
12 de Agosto de 2004Etiquetas: a pedra de Sísifo, little black spot, o ponto de vista dos demónios, prosa |
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17:56
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Sileno
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demora-se em mim o cansaço. enfraquece-me a vontade. hoje foi, apesar de tudo, um dia bom. o meu demónio de estimação segue-me para todo o lado, caminha silencioso atrás de mim, qual Sileno, e eu suspeito que ele sabe todas as coisas que eu não sei sequer perguntar.
23 de Julho de 2004Etiquetas: little black spot, o ponto de vista dos demónios, prosa |
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17:45
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sexta-feira, 22 de junho de 2007
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«Junho avança, com o Verão aberto na garganta, na sua urgência de rasgar caminho até ao fim da noite.» tenho o corpo estendido sobre o contorno da penumbra. o cansaço é acutilante e é possível que eu não esteja em mim. daqui, observo a noite inflamada, acredito - pelo silêncio por detrás da janela - que posso ver o fundo da escuridão.
26 de Junho de 2004Etiquetas: as horas mortas, little black spot, o ponto de vista dos demónios, prosa, verão |
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17:51
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17:07
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quinta-feira, 21 de junho de 2007
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21:48
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as horas mortas
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20:26
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