sábado, 7 de julho de 2007

 

 

 

 

preâmbulo

silêncio na madrugada:
à entrada da claridade,
o perfume dos cravos percorre o quarto
o dia ensaia-se pelas janelas.

25 de Abril de 2005






transfiguração

dói-me o perfume excessivo das glícinias
arde-me o céu parado sobre a terra muda

como o verão a rebentar-me dentro das veias.

26 de Abril de 2005






intersecção

nos lugares perdidos
nada se move
mas acordaram os grilos, e festejam.

29 de Abril de 2005

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sexta-feira, 22 de junho de 2007

 

 

 

 

«Junho avança, com o Verão aberto na garganta, na sua urgência de rasgar caminho até ao fim da noite.»
tenho o corpo estendido sobre o contorno da penumbra. o cansaço é acutilante e é possível que eu não esteja em mim. daqui, observo a noite inflamada, acredito - pelo silêncio por detrás da janela - que posso ver o fundo da escuridão.

26 de Junho de 2004

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i will not go quietly into the night

 

 

aproxima-se o verão. o verão por que desenfreadamente esperei, contra todas as evidências apressando o inverno, e agora que está próximo, que o sinto no sopro silencioso das árvores na minha pele, sinto medo. na memória das longas noites em claro, o meu corpo estremce de horror. quero um verão, sim, um bálsamo para as feridas, mas algo diferente dos dias de insuportável calor de um agosto passado, no fundo, inexistente.

11 de Junho de 2004

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reino #1

cheira a verão. é o ar parado, suspenso, o silêncio imóvel sobre a paisagem, ampliando o azul deserto sobre a cidade. a estrada de alcatrão arde, e ardem os meus olhos no excesso de luz dentro do automóvel, é isto um pressentimento de ferida, como uma estação que se abre, rasgando a membrana dos dias. cehira a verão, é a lua cheia, as ruas cheias de sol, e a certeza do mar por detrás dos montes e dos prédios.

4 de Junho de 2004

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pelos labirintos da sede

 

 

servem os dias de sol para esquecer o que dói. sobreposta luz excessiva sobre a táctil evidência da ferida, caminhamos na certeza da sombra. a terra é seca porque os templos ruíram e o céu deserto inteiro desabou sobre a claridade dos espaços, onde a água é sempre longínqua. como a saudade. serve o verão para queimar os pés no ardor do solo, que assim esquecem a dor de caminhar rente ao desmoronamento das memórias. ainda vivemos um tempo esquartejado, e ainda é ofício das mulheres que choram brotar as lágrimas nos seus escombros. mas ainda assim, porque é Junho agora, resistimos e seguimos adiante. felizmente, as mulheres continuam lindas. corajosas, elas levam as crias até onde há sombra e alimento.

2 de Junho de 2004

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Por vezes, precisávamos que tudo fosse simples

— como a luz esmorecendo sobre a tarde,
o verão balouçando nas copas das árvores,
os pés silenciosos no ardor do solo —

que tudo fosse simples como o amor pela terra.

22 de Maio de 2004

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explicação do verão

ouves, amor, o som dos pássaros à beira da água
ou o silêncio por trás da janela fechada

são tudo sinais da linguagem muda do chão
é por isso que o azul é deserto
e o sol abrasador

para que reconheçamos o ardor do solo
na inclinação das sombras
sobre as casas vazias feridas de branco
ou de excesso de luz

18 de Maio de 2004

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canícula

 

 

Há ainda o cansaço, apensar da canícula, ou se calhar por isso mesmo, nos olhos pesando as pálpebras, a fecharem-se como conchas, uma sugestão de tempo imóvel na vontade de deixar descair o corpo até ao chão, não render-me a nada senão à alegria sob o sol.

26 de Abril de 2004

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praia da amoreira

 

 

1
só uma sombra negra
denuncia junto à praia
o hálito fresco das amoreiras



2
a luz arde nas pálpebras
a claridade lisa como um espelho
talvez o sal de tão vasto mar



3
ao meio-dia
a estrada ferve e nós silenciamos
o ardor das feridas.

19 de Abril de 2004

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meio-dia

 

 

Tenho as primerias páginas rascunhadas daquela história à espera, possivelmente, de uma luz maior, ou de um verão mais doloroso, para que arrancar à brancura do silêncio as palavras agudas da ausência fosse, enfim, tarefa mais fácil.
Estamos imóveis perante a paisagem suspensa, é meio-dia queimando sobre o areal, os passos ardem sobre o espaço vasto. Não há uma erva que se mova, o próprio vento não se precipita para o céu deserto. A luz arde nas pálpebras, de muito contemplarem o mar ao longe. Há um carro parado na beira a estrada, um homem a olha, escavada na terra ígnea das planícies. Ao seu lado, uma mulher enverga uma camisola branca.

19 de Abril de 2004

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verão

 

 

nos lugares mais escuros da noite
no chão que arde sob o impiedoso
sol de verão
o nosso corpo toma a forma do silêncio

na planície lenta
com as pupilas feridas pela luz
o desejo faz bolha sob a pele

deitamo-nos nus sobre a terra
um pressentimento de mar nos basta.

3 de Março de 2004

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sábado, 19 de maio de 2007

 

 

o planeta vermelho parte, Agosto também

 

 

porque pressinto que o verão já se esgota
como animal acossado pela tempestade próxima

agarro-me aos farrapos de azul das horas difíceis
sabendo que o tempo não abranda não sossega
mais ainda assim

imploro e espero
que deixe ser Agosto por mais um momento.

29 de Agosto de 2003

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[tríptico + resolução]

 

 

porque é verão agosto passa e o mar tarda ainda
não há tempo ou alma que baste para desperdiçar
em muros despidos janelas fechadas braços ausentes

ou senão em poemas construções rítmicas estivais
porque há um céu que arde e um perfume de sal
e uma lua que aguarda o rumor brando das planícies

por isso é urgente que as palavras circunscrevam
as praias brancas os desertos os lugares ao sol
antes que o outono venha ensombrando os pinhais

com seu terno cântico de morte.

10 de Agosto de 2003

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angularidades #6

tudo o que restava foi perdido
os lugares de sal
a planície deserta
o azul que arde.

que curva imprevista
terá dissipado a hora
da solúvel eternidade?

que descuido ou desastre
dissolveu a matéria pobre do amor

e deixa o verão em estilhaços?

4 de Agosto de 2003

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[inesperadamente verão]

ao fim do dia a estrade arde
sob o seu pulmão verde de sombras.

29 de Julho de 2003

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