quinta-feira, 30 de agosto de 2007

 

 

so this is literature

 

 

#1

apesar de ti, estou aqui.
e eu conheço a matéria dos buracos negros.
nada te peço, mas sobrevivo-te


4 de Outubro de 2006





#2

aquele que traz
o coração ao pé da boca
vive do sabor rubro do sangue
e corta o pão
com a faca
sempre demasiado perto dos dedos.

9 de Outubro de 2006





#3

aquele que sente o frio
do lado de dentro
do coração
à falta de melhor gesto
esconde as mãos
por baixo da roupa
mas encontra
sempre os bolsos vazios.

11 de Outubro de 2006





#4

aquele a quem o mundo
dói em cada terminação
sensível
aperta
cegos botões noutro corpos
sempre com demasiada força.

11 de Outubro de 2006

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posted by saturnine | 19:20 | 3 comments

 

 

 

 

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tu não morres nunca
enquanto eu atirar pedras
contra o charco do teu silêncio

- e eu conheço bem
o estertor da morte
o som cavo e ritmado
da terra a espancar a madeira.

20 de Junho de 2006

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posted by saturnine | 19:12 | 0 comments

 

 

 

 

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acidentes e outros desastres quotidianos #2

 

 

#1

hoje
experimentar a respiração:
mundo, tira as mãos
de dentro da minha garganta.




#2

mundo, afrouxa os dedos
sobre as minhas entranhas
dói-me o corpo
em lugares que não tenho
onde eu vou
tu já não alcanças.




#3

este corpo conhece o exercício
da hedionda imobilidade
ante o que dói excessivamente

mundo, retira a tua mão agora
para que eu possa cair de borco.




#4

apodreceu o perfume
dos lilases nas janelas

gangrena o dia
alienado do sol

mundo, remove o teu braço
deste inútil naco de carne




#5

eu teria esperado um dia inteiro
agora não resta senão o vazio dos bolsos
a dor de todas as ruas vazias *

mundo, desaperta a crispação
em redor da carne viva.


* verso de Al Berto




#6

Será possível que nada se cumprisse? *
como pode alguém levar alguém pela mão
e largá-la sozinha no meio das sombras?
que foi feito dos abraços que enuciaste
da fé nos dias, do contentamento pelas
pequenas coisas?
já não tenho espaço para todas as canções
para todos os poemas em que me faltas
o meu corpo excedia-te e tudo
me excede agora a mim.
mundo, se tem que ser
aperta as tuas mãos
sobre o meu pescoço
mas não vaciles
corta-me o ar
que eu morro
deste veneno
que respiro.


* verso de Sohpia de Mello Breyner Andresen




#7

ainda que saiba de cor
a textura das manhãs
que sucedem os desastres
abro os olhos somente
para os oferecer
aos pombos e aos abutres
mundo, ajuda-me a desnascer.





#8

como é nojento o bicho-pessoa
dorido, de entranhas abertas
dá o coração a comer aos ratos
para fingir-se não vazio substitui
a pele por barbitúricos
e benzodiazepinas.

17 de Fevereiro de 2006






t.s. elliot

níveis mínimos de suporte de vida.
o lugar da ausência,
ou como se aprende que abril era mesmo o mais cruel dos meses.

31 de Maio de 2006

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posted by saturnine | 19:11 | 0 comments

 

 

 

 

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os ratos

quando eu morrer
haverá um festim

um a um
comerão os ratos
os ossos
os restos

da minha ausência.

25 de Janeiro de 2006

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posted by saturnine | 19:05 | 0 comments

 

 

 

 

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sábado, 7 de julho de 2007

 

 

inflamação

 

 

compreendes
que não há mais nada
só os destroços e a distância.

8 de Setembro de 2004

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posted by saturnine | 18:00 | 0 comments

 

 

 

 

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sexta-feira, 22 de junho de 2007

 

 

sandstones

 

 

I

três pedras negras
habitam a minha sede

da sua quietude
se alimenta
a minha fome

     * * *

três pedras negras
uma      a      uma      as movo


     uma sobre o abismo
     uma sobre o deserto

     uma sob o sol.



II

três pedras negras
uma a uma as movo


uma sobre a pele
uma sobre o chão
uma sob a ferida.

10 de Maio de 2004

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posted by saturnine | 17:37 | 0 comments

 

 

 

 

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praia da amoreira

 

 

1
só uma sombra negra
denuncia junto à praia
o hálito fresco das amoreiras



2
a luz arde nas pálpebras
a claridade lisa como um espelho
talvez o sal de tão vasto mar



3
ao meio-dia
a estrada ferve e nós silenciamos
o ardor das feridas.

19 de Abril de 2004

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posted by saturnine | 17:19 | 0 comments

 

 

 

 

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dos perfumes

 

 

minúscula a flor do jasmim
            ainda assim
            suficiente
para transformar este quarto            em luz exterior.

9 de Abril de 2004

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posted by saturnine | 17:11 | 0 comments

 

 

 

 

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quinta-feira, 21 de junho de 2007

 

 

 

 

:: do silêncio interior ::

pesam-me as pálpebras e os ombros
porque a noite é longa
e as árvores que morrem
não sopram qualquer rumor
que certifique a presença dos deuses
no vento que corre pelos desertos.

26 de Janeiro de 2004

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domingo, 10 de junho de 2007

 

 

Medusa

 

 

Na pura face do horror
resta um brilho antigo de estátua
e as duras linhas que se movem
sobre a pele calcária
de súbito se fazem translúcidas
e livres

flutuam pelo ar
abraçadas de silêncio e de morte.

10 de Outubro de 2003

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posted by saturnine | 15:49 | 0 comments

 

 

 

 

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sábado, 19 de maio de 2007

 

 

 

 

*inquietude*

afinal regresso ao lugar incerto
onde apesar de tudo ainda não sei
se o mundo avança ou se detém.

26 de Agosto de 2003






*espanto*

é no mesmo espanto inicial
do chão que recebe o primeiro sol
que pode o amor renascer do deserto

como se de súbito florissem
papoilas no meio das pedras.

27 de Agosto de 2003

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posted by saturnine | 21:44 | 0 comments

 

 

 

 

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