sexta-feira, 13 de julho de 2007
|
os deuses abandonam António [Kavafis]
digo então que não foi um engano. existiu aquele corpo, adiado pela sede. ou a sede, adiada pela noite.
5 de Setembro de 2005Etiquetas: little black spot, reinos |
posted by saturnine |
18:56
|

" ---------------------------------------------------------------
sábado, 7 de julho de 2007
a matéria simples
|
duas ânforas de barro num canto silencioso o rumor da água perfumando a noite escura.
23 de Setembro de 2004Etiquetas: little black spot, noite, reinos |
posted by saturnine |
18:07
|

" ---------------------------------------------------------------
uma disposição vagamente oriental
|
a noite excessivamente calma, o negro que pesa sobre a erva, e a promessa de chuva suspensa depois dos montes, assegura-me que há em mim uma parte que se desprende, que sonha com os rios lodacentos e os vastos arrozais, com a neve no cume das montanhas e o som dos pássaros ao arborescer da primavera. são as pálpebras cansadas que anseiam ser lavadas pela luz, no oriente longínquo. fechar os olhos, saber o mundo inteiro num só negro contorno, perfeitamente impregnado de silêncio e de indizível.
17 de Agosto de 2004Etiquetas: little black spot, prosa, reinos |
posted by saturnine |
17:58
|

" ---------------------------------------------------------------
deslocamento
|
o mundo é um lugar que não foi feito à nossa medida. daquilo que verdadeiramente importa, a sombra das árvores, o sopro do silêncio nas janelas, os caminhos intermináveis das noites de verão, fomos exilados. já não há poesia onde um corpo repouse, tão só os dedos feridos de escavar a terra, o rosto cansado de olhar os céus desabitados.
28 de Julho de 2004Etiquetas: little black spot, poesia, prosa, reinos |
posted by saturnine |
17:50
|

" ---------------------------------------------------------------
sexta-feira, 22 de junho de 2007
|
que farei quando tudo arde? #1
o sol a pique riscava no chão o negro contorno de uma coluna da cidade destruída. caminhei por entre os escombros e, sob um céu despovoado, lá encontrei um vestígio do meu corpo. a minha pele desmoronada como pedra e cal.
24 de Junho de 2004
que farei quando tudo arde? #2
era uma única noite interminável, quieta e densa, não se conseguia ver o fim da sua escuridão. ausentes todos os perfumes, proibidas todas as palavras. de olhos abertos frente ao abismo se aprende o rosto das pequenas mortes.
24 de Junho de 2004Etiquetas: deserto, little black spot, prosa, reinos |
posted by saturnine |
17:50
|

" ---------------------------------------------------------------
|
reino #1
cheira a verão. é o ar parado, suspenso, o silêncio imóvel sobre a paisagem, ampliando o azul deserto sobre a cidade. a estrada de alcatrão arde, e ardem os meus olhos no excesso de luz dentro do automóvel, é isto um pressentimento de ferida, como uma estação que se abre, rasgando a membrana dos dias. cehira a verão, é a lua cheia, as ruas cheias de sol, e a certeza do mar por detrás dos montes e dos prédios.
4 de Junho de 2004Etiquetas: little black spot, prosa, reinos, verão |
posted by saturnine |
17:46
|

" ---------------------------------------------------------------
a noite pela terra
|
ao fechar as portadas , a noite penetrou deixando no varandim os incidentes do dia, dos dias. é em horas assim que a noite chega como um sopro, vinda de lugares distantes, e nos alcança com a proximidade das coisas conhecidas, e quando nela assim entramos não há lugar para o sono, porque a noite penetra em todos os cantos de casa e enche-a do seu perfume em que, rendidos, reconhecemos a substância de um reino longínquo a que estamos prometidos.
3 de Junho de 2004Etiquetas: little black spot, noite, prosa, reinos |
posted by saturnine |
17:45
|

" ---------------------------------------------------------------
pelos labirintos da sede
|
servem os dias de sol para esquecer o que dói. sobreposta luz excessiva sobre a táctil evidência da ferida, caminhamos na certeza da sombra. a terra é seca porque os templos ruíram e o céu deserto inteiro desabou sobre a claridade dos espaços, onde a água é sempre longínqua. como a saudade. serve o verão para queimar os pés no ardor do solo, que assim esquecem a dor de caminhar rente ao desmoronamento das memórias. ainda vivemos um tempo esquartejado, e ainda é ofício das mulheres que choram brotar as lágrimas nos seus escombros. mas ainda assim, porque é Junho agora, resistimos e seguimos adiante. felizmente, as mulheres continuam lindas. corajosas, elas levam as crias até onde há sombra e alimento.
2 de Junho de 2004Etiquetas: deserto, little black spot, prosa, reinos, verão |
posted by saturnine |
17:44
|

" ---------------------------------------------------------------
Maio
|
parecia Maio ainda atrasado, demorado pelos arvoredos, ainda a vestir-se de folhas. Maia sobre a pedra, Maio sobre a terra, Maio sobre o pássaro. abre-se subitamente a tarde, Maio sacode no exterior a poeira fina do exílio da superfície das coisas. se por entre as nuvens, um raio de sol de escapa, é já suficiente para acender de amarelo o dia, e é já o meu reino prometido, dos lugares habitados pelo murmúrio antigos dos deuses nos jardins.
7 de Maio de 2004Etiquetas: little black spot, reinos, you must believe in spring |
posted by saturnine |
17:36
|

" ---------------------------------------------------------------
|
:: promessa de sangue ::
sobre as pálpebras sobre os ombros o peso de um verão adiado
há-de vir o dia o sol e o seu reino claro de espaços
entretanto urdem as sombras os nosso segredos.
5 de Maio de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, reinos |
posted by saturnine |
17:32
|

" ---------------------------------------------------------------
o lugar das palavras
|
na medida justa do silêncio se constrói o lugar da palavra templo ou substância — ardendo sob o sol.
30 de Abril de 2004Etiquetas: little black spot, poesia, reinos |
posted by saturnine |
17:23
|

" ---------------------------------------------------------------
regresso
|
de coração magoado então Ulisses se demora
estranho o tardio entedimento como o leve torpor de um longo sono
compreender na distância — — pássaro ferido não se aventura a sobrevoar o mar imenso.
15 de Abril de 2004Etiquetas: ítaca, little black spot, reinos |
posted by saturnine |
17:15
|

" ---------------------------------------------------------------
ÍTACA, ainda
|
Penélope adormecida sobre a negra noite deposita o amargo silêncio da espera.
Ulisses ausente ao largo apressa o coração magoado em direcção à ilha rochosa à terra mais firme que o sonho que o demora.
11 de Abril de 2004 Etiquetas: ítaca, little black spot, reinos |
posted by saturnine |
17:12
|

" ---------------------------------------------------------------
os caminhos do Nilo
|
1 se é promessa o verão vindouro que a terra se inunde também das lágrimas caudalosas que descem desde a planície seca das histórias até ao delta dos meus olhos
2 tomamos o caminho das águas lentas porque nelas habitam as memórias dos deuses e a promessa de pão para as nossas bocas
3 aquele que há-de chegar virá do deserto e atravessará o rio em direcção a um oásis branco.
1 de Março de 2004Etiquetas: little black spot, reinos |
posted by saturnine |
16:56
|

" ---------------------------------------------------------------
|
the beautiful one who has come
o tempo nega a promessa antiga de que o meu rosto seria moldado com as areias do deserto longínquo
da perfeição resta apenas o ritmo calcário da memória e do mito.
1 de Março de 2004Etiquetas: little black spot, reinos |
posted by saturnine |
16:55
|

" ---------------------------------------------------------------
quinta-feira, 21 de junho de 2007
|
para a reconstrução de um mundo puro
num quarto fechado a luz não entra — — a noite longa crava-se nas paredes habitadas de negras sombras e tu não conheces senão os estreitos corredores do medo
não suspeitas que tão pouco te separa de um reino de sol onde serias luminoso e inteiro na medida justa do teu corpo onde habita o sopro dos deuses
— se soubesses tactear a manhã junto ao silêncio em que te assombras.
20 de Fevereiro de 2004Etiquetas: little black spot, mediterrânica, reinos |
posted by saturnine |
21:45
|

" ---------------------------------------------------------------
|
Ítaca #3
eis que vieste. mas não saberei dizer se voltaste porque é sepre outro que regressa diferente daquele que partiu esse que fica para sempre na bruma
mas pode ser que também eu seja outra - que menos saiba do que dói - não aquela que espera mas a que fez das noites longas o seu ofício.
26 de Janeiro de 2004Etiquetas: ítaca, little black spot, reinos |
posted by saturnine |
20:33
|

" ---------------------------------------------------------------
|
[promessa]
carrego nas mãos os destroços da cidade antiga suas ruas suas arcadas seus templos suas luminosas colunas de sal e toda a ruína me cabe neste gesto
pode ser que a noite longa esteja ainda para findar é duro o inverno mas certa a promessa do corpo
se qualquer coisa aqui se acaba pode ser que seja o medo afinal enfim que os fantasmas morram ou que seja livre a substância do meu sono.
13 de Janeiro de 2004Etiquetas: angularidades, little black spot, reinos |
posted by saturnine |
20:25
|

" ---------------------------------------------------------------
domingo, 10 de junho de 2007
Medusa
|
Na pura face do horror resta um brilho antigo de estátua e as duras linhas que se movem sobre a pele calcária de súbito se fazem translúcidas e livres
flutuam pelo ar abraçadas de silêncio e de morte.
10 de Outubro de 2003Etiquetas: little black spot, pedra polida, reinos |
posted by saturnine |
15:49
|

" ---------------------------------------------------------------
sábado, 19 de maio de 2007
Eurydice
|
não há fonte ou ânfora bastante para as lágrimas todas que tenho para chorar-te.
18 de Agosto de 2003Etiquetas: little black spot, reinos |
posted by saturnine |
21:40
|

" ---------------------------------------------------------------
|