quinta-feira, 21 de junho de 2007

 

 

 

 

varandas

porque a varanda é o lugar privilegiado do sol
é onde a sombra se forma em colunas negras
e onde o silêncio — rente à penumbra fina —
transpira o hálito azul o rumor das manhãs
ou o tom nocturno das praias distantes
a medida justa das coisas
a claridade precisa da poesia.

21 de Fevereiro de 2004

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[interior]


1

a casa fechada
o verão demora-se pelas paredes brancas
inclina-se a tarde pela praia


2
as janelas abertas de par em par
um quadrado de luz rasga o silêncio
o dia aureolado de azul


3
o rumor do mar ao longe
os joelhos descansados sobre o chão
os corredores de súbito inquietos
é este o lugar que o medo habita


4
densas são as sombras
negra a noite perfumada.

11 de Fevereiro de 2004





[exterior]

1

a estrada arde
sob o hálito quente do deserto


2
nenhuma protecção tem o corpo
contra o grande olho aberto do sol
assim suspenso na paisagem


3
a pique o gume do silêncio
recorta o negro contorno do lugar
— aqui não perguntamos


4
dizem que os deuses andam por aqui
e eu acredito
se os vejo e pressinto
na linha pura dos teus ombros.

12 de Fevereiro de 2004

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a propósito de Daniel Faria


primeira explicação do amor

olha, é assim o amor
cercar-me o verde dos teus olhos
acolher o ardor do sol
a amargura do silêncio
junto à frágil negrura das sombras
e beber da própria substância
da nossa sede.

9 de Fevereiro de 2004






explicação do deserto

onde os outros ardem
sustêm ferida
assim sou eu —
— feliz sob o sol.

11 de Fevereiro de 2004







explicação da luz

os ângulos da casa dobrados
no recorte negro das sombras
o lugar predisposto para o corpo pleno
o sol queimando o chão pelas janelas

11 de Fevereiro de 2004







explicação do silêncio

o que não se sabe
das profundezas da palavra
o que não se pergunta

11 de Fevereiro de 2004






segunda explicação do deserto

ardem sob o sol
fundas raízes
mas é nesse árido sossego
que a noite descansa
e a água se prepara —
— onde era a ferida aqui e além
agora um jardim florido.

12 de Fevereiro de 2004







segunda explicação do amor

olha, é assim o amor —
— a noite negra e longa
que eternamente aguarda
a manhã que nunca vem.

12 de Fevereiro de 2004







terceira explicação do amor

saber assim
que o peito dói em vão.

12 de Fevereiro de 2004







explicação da manhã

acordar
no pressentimento do orvalho
respirar
o ar frio rodeando as árvores
seguir o dia aureolado de azul
voluntariosos são
os que acreditam no sol.

13 de Fevereiro de 2004

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posted by saturnine | 20:48 | 0 comments

 

 

 

 

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[promessa]

carrego nas mãos
os destroços da cidade antiga
suas ruas suas arcadas seus templos
suas luminosas colunas de sal
e toda a ruína me cabe neste gesto

pode ser que a noite longa
esteja ainda para findar
é duro o inverno
mas certa a promessa do corpo

se qualquer coisa aqui se acaba
pode ser que seja o medo afinal
enfim que os fantasmas morram
ou que seja livre a substância do meu sono.

13 de Janeiro de 2004

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sábado, 19 de maio de 2007

 

 

 

 

[mediterrânica]

plenitude, inflamação e queda
aguarda-me a mansidão das pedras
de todos os muros desmoronados

a luz entrecortada de ângulos
escapa-se pelas frestas das ruínas

onde era aqui um templo
agora apenas sol e sombra

memória mediterrânica
do que não chegamos a ser.

5 de Agosto de 2003

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posted by saturnine | 21:28 | 0 comments

 

 

 

 

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angularidades #6

tudo o que restava foi perdido
os lugares de sal
a planície deserta
o azul que arde.

que curva imprevista
terá dissipado a hora
da solúvel eternidade?

que descuido ou desastre
dissolveu a matéria pobre do amor

e deixa o verão em estilhaços?

4 de Agosto de 2003

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posted by saturnine | 21:26 | 0 comments

 

 

 

 

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deste lugar imprevisto
oponho-me ao calcinar do tempo
abro o sal da ferida
sustento-o na recordação do mar

e acontece doer-me
por vezes
esta coisa qualquer que falta
ao mundo

para que sejamos
um.

4 de Agosto de 2003

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#2

 

 

angularidades #1

dizem que os dias arrastam a fibra
da memória
que te perderei algures
numa dessas ruas
em que não passa ninguém
senão eu

ao dobrar uma esquina

por onde se curva a noite
por onde espreita a morte.

23 de Julho de 2003







angularidades #2

porque me disseram
que da flor se engendra a eternidade
estendo um leque de acácias
sobre o silêncio agudo dos dias

para que a minha boca
inflamada de sal
adquira
desde já
o contorno do teu nome.

23 de Julho de 2003







angularidades #3

dizem-me que nada do que rui
subsiste
que te perderei um dia
quando aprender a perder-te
como quem de súbito
odeia o sol
que lhe ilumina os passos

recortados de ângulos
negros impossíveis.

24 de Julho de 2003







angularidades #4

a substância do meu cansaço
a orla invisível do meu corpo
como espuma branca

ou pedra sobre a falta.

25 de Julho de 2003







angularidades #5

quebrados os espaços
o silêncio estilhaçado pelos cantos
orlas negras
de bruços
os meus passos dispersos

o distinto nojo converte-se
em consagrada indiferença.


26 de Julho de 2003

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