segunda-feira, 29 de outubro de 2007

 

 

 

 

enquanto tu avanças, eu sou a que regressa sempre aos lugares antigos. por estes dias, entretenho-me a desejar que construas templos e palácios aos meus pés. enquanto tu não me felicitas sequer pela chegada do outono.

27 de Setembro de 2007

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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

 

 

breu

 

 

sábado. três da manhã na estrada sem ninguém. o mundo evapora-se à emergência de Sigur Rós. a noite cai inteira como um poço negro. Svefn-g-englar atravessa-a como uma flor de estiletes.

17 de Janeiro de 2006

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sexta-feira, 13 de julho de 2007

 

 

transparências

 

 

estes braços
insuficientes para o teu corpo
respiram a custo
o ar transparente
das manhãs       coroadas de luz.


10 de Dezembro de 2005

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tipologia do animal ferido

 

 

ensaiar o menos possível. recolher. manter-se imóvel, para sustentar o que dói.

13 de Setembro de 2005

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sábado, 7 de julho de 2007

 

 

nocturna

 

 

dói-me a urgêncio do teu corpo
que a noite tumultuosa adia.

15 de Maio de 2005

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full moon is on the rise

 

 

não tenho modo de dizer
o que falta depois do teu corpo_


_______há dias a fio
que nenhuma palavra
me pede para nascer.


23 de Abril de 2005

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manhã luminosa

 

 

é inequívoca e inexprimível
a falta do teu corpo
ante o excesso de luz

— o dia inteiro desenha-se
sob as tuas pálpebras.

9 de Abril de 2005

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dos oásis

 

 

na serra, onde o frio domina o excesso de espaço, onde cada lugar é ao corpo doloroso, rolar até ao outro lado da cama para alcançar o aparelho de música, é como atravessar um oceano inteiro — ou um deserto — em busca de água para saciar a sede.

29 de Novembro de 2004

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inscrição

 

 

Saberás que não te amo e que te amo *
saberás dos meus passos vãos
dos meus ombros caídos
saberás dessa outra morte
que a tua partida descreve
que me doem os olhos
como dois sóis apagados.

verso de Pablo Neruda



13 de Julho de 2004

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quinta-feira, 21 de junho de 2007

 

 

 

 

a propósito de Daniel Faria


primeira explicação do amor

olha, é assim o amor
cercar-me o verde dos teus olhos
acolher o ardor do sol
a amargura do silêncio
junto à frágil negrura das sombras
e beber da própria substância
da nossa sede.

9 de Fevereiro de 2004






explicação do deserto

onde os outros ardem
sustêm ferida
assim sou eu —
— feliz sob o sol.

11 de Fevereiro de 2004







explicação da luz

os ângulos da casa dobrados
no recorte negro das sombras
o lugar predisposto para o corpo pleno
o sol queimando o chão pelas janelas

11 de Fevereiro de 2004







explicação do silêncio

o que não se sabe
das profundezas da palavra
o que não se pergunta

11 de Fevereiro de 2004






segunda explicação do deserto

ardem sob o sol
fundas raízes
mas é nesse árido sossego
que a noite descansa
e a água se prepara —
— onde era a ferida aqui e além
agora um jardim florido.

12 de Fevereiro de 2004







segunda explicação do amor

olha, é assim o amor —
— a noite negra e longa
que eternamente aguarda
a manhã que nunca vem.

12 de Fevereiro de 2004







terceira explicação do amor

saber assim
que o peito dói em vão.

12 de Fevereiro de 2004







explicação da manhã

acordar
no pressentimento do orvalho
respirar
o ar frio rodeando as árvores
seguir o dia aureolado de azul
voluntariosos são
os que acreditam no sol.

13 de Fevereiro de 2004

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desmoronamento

 

 

não me perguntes.
de mim só sei que me doem
estas noites assim bravias
onde afinal nada parece de acordo
com o meu improvável amor por ti.

4 de Fevereiro de 2004

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a partir de Daniel Faria

o que dói
é aguardar-te por entre as sombras

tu que te demoras
enquanto a eternidade
se me acaba nas mãos

diz-me agora desses desertos azuis
por onde te perdeste noutros braços
eu que só conheço esta noite longa
em que na espera me desfaço.

20 de Janeiro de 2004

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"as praias desertas continuam"

nem sempre a tristeza é triste
por vezes é só outra coisa
qualquer
camisola velha pousada esquecida
num canto escuro do armário
mas na malha ainda a ideia prometida
da ternura
qualquer coisa como Jobim a rasgar
a noite, uma inútil paisagem

e se é inverno e as mãos gelam e o peito dói
imagino o abraço o cobertor a fogueira
aqueço-me
na própria ideia do calor.

16 de Dezembro de 2003

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domingo, 10 de junho de 2007

 

 

 

 

[poema de um desamor contínuo]

não é certo que me exiles
que das tuas mãos nada
cresça senão as pedras

o tecido desgastado do silêncio
está já esticado à beira da ruptura
um arco demasiado tenso que
arrisca rebentar-me nos braços

este solo pisado e magoado
vezes sem conta suspira já
o cansaço de ser ruína
ponte tactando lugar nenhum
senão o degredo a que me votas

não posso mais - porque não posso -
dar-me a este desconsolo
nem a noite é já suficiente
para que qualquer coisa se resgate

agora quero apenas a calma
ou alguma coisa parecida
um rumor imprevisto improvável

tudo menos este silêncio
esta brutalidade com que
pela indiferença me aniquilas.

3 de Setembro de 2003

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sábado, 19 de maio de 2007

 

 

 

 

*o sal na ferida*

três cordas tensas disputam
o ponto exacto do desassossego
uma ponte ou uma torre ou um arco
ruindo na desolação destes dias inúteis.

qualquer coisa podia acontecer
se apenas um vento breve soprasse

mas tudo reside incerto e imóvel
um mesmo silêncio agudo
a rodear-me como espuma
descontente de ser branca e fria.

se ao menos um vento brando soprasse
e qualquer coisa acontecesse

um barco ou navio ou jangada
cruzasse o horizonte distante
eu não tivesse de me fazer ao mar

tão despreparada

tão nua
tão despida de ti.

1 de Setembro de 2003

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