sexta-feira, 13 de julho de 2007

 

 

sur la plaine

 

 

sei que pertenço ao deserto quando me reconheço na respiração difícil da terra seca, no cheiro quente dos pinheiros e dos eucaliptos à margem da estrada, no silêncio que arde no chão no auge da tarde. tudo me chama para o sul - excepto a água, que me mantém emparedada na sede transmontana.

16 de Junho de 2005

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sábado, 7 de julho de 2007

 

 

respiração das sombras

 

 

nem as fontes nem o mar:
no meio do deserto
sentiria falta das árvores.

21 de Setembro de 2004

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sexta-feira, 22 de junho de 2007

 

 

 

 

que farei quando tudo arde? #1

o sol a pique riscava no chão o negro contorno de uma coluna da cidade destruída. caminhei por entre os escombros e, sob um céu despovoado, lá encontrei um vestígio do meu corpo. a minha pele desmoronada como pedra e cal.

24 de Junho de 2004






que farei quando tudo arde? #2

era uma única noite interminável, quieta e densa, não se conseguia ver o fim da sua escuridão. ausentes todos os perfumes, proibidas todas as palavras. de olhos abertos frente ao abismo se aprende o rosto das pequenas mortes.

24 de Junho de 2004

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há homens cujo destino é atravessar o mundo, os seus desertos, os seus abismos, os seus vales, as suas praias, atravessar o mundo inteiro durante a noite, enquanto outros dormem. e se a estes homens doem os pés cansados da incerteza do caminho, é para que os que dormem possam sonhar, e estes acreditam que viram também os mais distantes lugares do mundo, e acreditam também que uma dor desconhecida lhes aflige o corpo antes do sono. e se a cada manhã tudo recomeça, é porque nunca é dado aos homens chegarem ao fim do seu destino. aqui, a noite coincide com o início do mundo. e há homens que têm muitas milhas para andar antes de dormir.

12 de Junho de 2004

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do ar parado entre as montanhas

 

 

à hora sem sombra
arde na praia o silêncio
e a tua mão no meu corpo.

9 de Junho de 2004

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pelos labirintos da sede

 

 

servem os dias de sol para esquecer o que dói. sobreposta luz excessiva sobre a táctil evidência da ferida, caminhamos na certeza da sombra. a terra é seca porque os templos ruíram e o céu deserto inteiro desabou sobre a claridade dos espaços, onde a água é sempre longínqua. como a saudade. serve o verão para queimar os pés no ardor do solo, que assim esquecem a dor de caminhar rente ao desmoronamento das memórias. ainda vivemos um tempo esquartejado, e ainda é ofício das mulheres que choram brotar as lágrimas nos seus escombros. mas ainda assim, porque é Junho agora, resistimos e seguimos adiante. felizmente, as mulheres continuam lindas. corajosas, elas levam as crias até onde há sombra e alimento.

2 de Junho de 2004

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*oásis*

aqui chegamos nós à beira da água
e ainda assim se cristaliza a substância da nossa sede
é o silêncio      o céu deserto      o azul esmagador
ou o sol sobre a ferida        a palavra sobre o chão.



4 de Maio de 2004

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meio-dia

 

 

Tenho as primerias páginas rascunhadas daquela história à espera, possivelmente, de uma luz maior, ou de um verão mais doloroso, para que arrancar à brancura do silêncio as palavras agudas da ausência fosse, enfim, tarefa mais fácil.
Estamos imóveis perante a paisagem suspensa, é meio-dia queimando sobre o areal, os passos ardem sobre o espaço vasto. Não há uma erva que se mova, o próprio vento não se precipita para o céu deserto. A luz arde nas pálpebras, de muito contemplarem o mar ao longe. Há um carro parado na beira a estrada, um homem a olha, escavada na terra ígnea das planícies. Ao seu lado, uma mulher enverga uma camisola branca.

19 de Abril de 2004

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*antecipação*

gosto do meio-dia a pique sobre a praia
a hora em que o sol aperta como uma corda
o desejo o silêncio o mar a pele que arde
o olhar escurecido pelo excesso de luz.

8 de Março de 2004

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quinta-feira, 21 de junho de 2007

 

 

 

 

dos desertos #2

aquele que ama o deserto
caminhará de frente para o sol
e sentir-se-á feliz e pleno
com o ardor da areia no corpo,
as pupilas feridas pela luz.


27 de Fevereiro de 2004

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das águas caudalosas do oriente

 

 

não sei senão que o coração se me aperta
se pressente a terra cujo pó não respirou

— na falta de areia para enterrar os dedos
assim cubro o corpo com o véu do mito

tacteio na densa penumbra da noite longínqua
um rosto de mulher em cuja sombra me eternizo.

22 de Fevereiro de 2004

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exílios #2

trazer o deserto por dentro
ser-se o próprio corpo do sol
a pique sobre a memória
cavando negras sombras
sobre a areia que arde
sobre a saudade que ferve

ser-se a cidade em ruínas
o silencio brutal entre os escombros
o cansaço em que a própria sede
se esgota
a noite longa que se abisma
sobre a ferida

mas ser-se também a manhã gloriosa
a luz a entrar nas casas pelas janelas
o dia novo reconstruído
depois de vencida a substância do medo.

20 de Fevereiro de 2004

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apesar do frio

porque nos desertos os deuses habitam
ainda os lugares recônditos do silêncio
aqui me sento e espero a poesia

apesar do frio

14 de Fevereiro de 2004

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auscultação da terra

 

 

há quem diga que os deuses
permanecem nos lugares inabitáveis
onde nenhum rumor é possível
onde a terra é ferida aberta e nós

os que vagueamos à procura
nada sabemos
do que dizem os ventos no deserto.

9 de Fevereiro de 2004

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a propósito de Daniel Faria


primeira explicação do amor

olha, é assim o amor
cercar-me o verde dos teus olhos
acolher o ardor do sol
a amargura do silêncio
junto à frágil negrura das sombras
e beber da própria substância
da nossa sede.

9 de Fevereiro de 2004






explicação do deserto

onde os outros ardem
sustêm ferida
assim sou eu —
— feliz sob o sol.

11 de Fevereiro de 2004







explicação da luz

os ângulos da casa dobrados
no recorte negro das sombras
o lugar predisposto para o corpo pleno
o sol queimando o chão pelas janelas

11 de Fevereiro de 2004







explicação do silêncio

o que não se sabe
das profundezas da palavra
o que não se pergunta

11 de Fevereiro de 2004






segunda explicação do deserto

ardem sob o sol
fundas raízes
mas é nesse árido sossego
que a noite descansa
e a água se prepara —
— onde era a ferida aqui e além
agora um jardim florido.

12 de Fevereiro de 2004







segunda explicação do amor

olha, é assim o amor —
— a noite negra e longa
que eternamente aguarda
a manhã que nunca vem.

12 de Fevereiro de 2004







terceira explicação do amor

saber assim
que o peito dói em vão.

12 de Fevereiro de 2004







explicação da manhã

acordar
no pressentimento do orvalho
respirar
o ar frio rodeando as árvores
seguir o dia aureolado de azul
voluntariosos são
os que acreditam no sol.

13 de Fevereiro de 2004

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:: do silêncio interior ::

pesam-me as pálpebras e os ombros
porque a noite é longa
e as árvores que morrem
não sopram qualquer rumor
que certifique a presença dos deuses
no vento que corre pelos desertos.

26 de Janeiro de 2004

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sábado, 19 de maio de 2007

 

 

[tríptico + resolução]

 

 

porque é verão agosto passa e o mar tarda ainda
não há tempo ou alma que baste para desperdiçar
em muros despidos janelas fechadas braços ausentes

ou senão em poemas construções rítmicas estivais
porque há um céu que arde e um perfume de sal
e uma lua que aguarda o rumor brando das planícies

por isso é urgente que as palavras circunscrevam
as praias brancas os desertos os lugares ao sol
antes que o outono venha ensombrando os pinhais

com seu terno cântico de morte.

10 de Agosto de 2003

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