sexta-feira, 13 de julho de 2007
quase setembro
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algo em mim se desmancha à chegada da chuva. as ruas perdem a cor, diluída nas horas cinzentas. ainda assim, é a cidade lavada que encontro, nos passeios espelhados de nostalgia. e a quase antecipação das folhas caídas, dos primeiros ventos a sacudir os montes, dos passos pesados sobre a terra húmida, despertam em mim uma morna alegria, de raiz alimentada, de regresso a casa. ser triste é um ofício, como o é pertencer ao outono, habitar por dentro um subterrâneo.
10 de Setembro de 2005Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, outonal, prosa |
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18:57
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sábado, 7 de julho de 2007
das águas escuras que habitam o fundo dos poços
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ainda que a noite me habite e haja demasiado mundo à minha volta há ainda as coisas simples as sardinhas assadas com pimentos o perfume do jasmim rente aos muros o bafo quente da tarde no pico do verão um rapaz de olhos verdes de quem eu gosto
corpo a corpo enfrentamos os lugares do medo.
9 de Maio de 2005Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, noite |
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18:34
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silence, et puis. [Marguerite Duras]
o sossego, por fim. duros foram os meses deste sol diminuto, longas as noites cercadas de angústia. Sísifo rondava a casa, o sono perturbado pelo som das pedras a desgastar o tempo. agora, acabou. não mais atravessarei os dias apressada, não mais mais entrarei nas noites assombrada, não mais farei do outono os árduos caminhos do medo. acabaram-se as horas de reclusão, acabaram-se as tarefas inadiáveis, acabaram-se os monstros tenebrosos das coisas por fazer. tudo repousa, como massa de pão. o dia, agora, é meu. não mais andarei com pressa pelo meio das árvores nem esquecerei de prestar atenção ao som dos meus próprios passos. andarei vagarosa pela serra e absorverei todos os cheiros do inverno vindouro. o dia amanheceu claro, e eu respiro a felicidade das mãos frias e dos cachecóis coloridos. esta noite, o meu peito permaneceu desabitado. é com alívio que regresso dos subterrâneos.
20 de Novembro de 2004Etiquetas: a pedra de Sísifo, dos subterrâneos, little black spot, you must believe in spring |
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18:17
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húmus #2
por vezes, no que na noite há de comum com a fértil decomposição da matéria, a morte é um lugar mais próximo.
14 de Novembro de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, prosa |
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18:13
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soon the equinox
nenhuma antecipação anterior a Setembro que agora se esvai
e eu desatenta do azul moldo já o corpo à medida do outono.
19 de Setembro de 2004
soon the equinox #2
tão próxima a terra o rumor subterrâneo sob os meus pés estalam já folhas caídas
entretanto o corpo no chão de cinzas — preparo-me para as noites longas
21 de Setembro de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, outonal |
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18:10
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posterior
compreendo também que me é insuportável esta hora é tudo excessivo mesmo a penumbra animada de incertezas que abomino.
8 de Setembro de 2004
reconhecimento
a todo o momento espero novo desastre ou um qualquer improvável que me salve.
8 de Setembro de 2004
interior
a noite sobe os montes é tempo de preparar o aconchego para os mortos.
7 de Outubro de 2004
outonal
o medo desce a encosta onde a noite é escura lá no alto, o vento ruge.
8 de Outubro de 2004
reino
do alto da serra a própria noite vigia os caminhantes
16 de Outubro de 2004
quadro
todo o dia arrasto atrás de mim uma surdina, um rasto de outono. negras caem as noites, em fogo caem as folhas.
16 de Outubro de 2004
abismo
onde a noite é ampla e o silêncio profundo mesmo o arvoredo é negro e insondáveis são os caminhos do medo.
20 de Outubro de 2004
precipício
na estrada cavada na serra se a chuva enegrece a tarde o medo faz-se vertigem.
31 de Outubro de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, os montes habitados |
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18:02
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sexta-feira, 22 de junho de 2007
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:: promessa de sangue ::
sobre as pálpebras sobre os ombros o peso de um verão adiado
há-de vir o dia o sol e o seu reino claro de espaços
entretanto urdem as sombras os nosso segredos.
5 de Maio de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, reinos |
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17:32
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lugar comum
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Se me mantenho silenciosa é por aproximação para com as árvores. Compreender que se as mãos se afundam na terra negra é em busca de raízes, e se o húmus vem agarrado às unhas no regresso, é para dele se constituir alimento. Permaneço aqui, no lugar desta tarde incerta, aguardando um murmúrio — de folhagens ou de deuses —, um sopro, que já não me fale da noite longa, mas do canto do vento nos milheirais. Semelhante à memória imóvel é o caminho até à praia, queimado de mudos passos, ardendo sob o sol.
17 de Abril de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, outonal, prosa |
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17:17
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porquê morrer? se até as aves fazem ninho sobre o mar se já a claridade invade os cantos vazios da casa se no silêncio das tardes a própria ferida se torna matéria solar
concede às palavras o ânimo inspirado de circundarem as sombras rente aos muros
diz-me — — se até das cinzas se fabrica o pão porquê morrer?
17 de Abril de 2004Etiquetas: a intacta ferida, dos subterrâneos, little black spot |
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17:16
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do silêncio ao fundo
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são as sombras que flutuam como pássaros pelo fundo dos teus olhos e a noite principia no círculo negro que encerram
estar assim no silêncio da incerteza a única forma possível para o amor desconhecer ― mesmo assim tactear ― que perigos se escondem no escuro das profundezas.
19 de Março de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, noite |
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17:03
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quinta-feira, 21 de junho de 2007
terra
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1 no silêncio das profundezas alguma coisa se nomeia
é assim ter um lugar vivo garantido pelas palavras
2 auscultar a superfície da terra tactear o húmus pressentido abaixo
3 para além de tudo o que morre há o lugar escuro das palavras assim como o das cinzas sobre o solo negro contorno das coisas vivas matéria-prima do silêncio.
4 ser-se corpo fértil verde do verde que alimenta o chão.
16 de Fevereiro de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot |
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21:41
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húmus
do Lat. humus s. m., (Bot.), terra vegetal que fornece a nutrição às plantas;
material orgânico derivado da decomposição de matéria animal e vegetal que existe (em mistura) na camada superior dos solos.
porque o corpo pertence à terra e porque os olhos são fundas raízes pela noite adentro são afinal as cinzas o nosso alimento que as mãos revolvem
— é ser-se fértil onde outros perecem matéria-prima do silêncio ou dos regressos um olhar para dentro saber
(não há nada que morra ou se esgote).
14 de Fevereiro de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, fruto saturnino, little black spot |
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21:39
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claro-escuro #1
os lugares vazios da terra os interiores das casas onde as sombras se habitam de vida onde o silêncio se banha de luz.
8 de Fevereiro de 2004Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot, minimal |
posted by saturnine |
20:45
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[da terra]
se conheço alguma coisa da terra é este chão de cinza sob os pés a certeza de um inferno mais abaixo onde os corpos dançam e os quartos se pintam se sombras para afugentar a noite.
19 de Outubro de 2003Etiquetas: dos subterrâneos, little black spot |
posted by saturnine |
15:59
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