quinta-feira, 21 de junho de 2007

 

 

 

 

Re: Re: Re: Ítaca revisitada

enquanto Ulisses voga
ébrio do azul imenso e
esplêndido dos desertos
na fragilidade da distância
uma ilha improvável se desfaz

enquanto Ulisses contempla e sonha
- Circe, a caverna, as aves de partida -
dorme Penélope, abandonada e triste

[também o tempo a memória os afectos
são desertos]

14 de Janeiro de 2004

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posted by saturnine | 20:24 | 0 comments

 

 

 

 

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Re:

Sofro de um prolapso sistólico da válvula mitral que desde a infância determina que não sou capaz de grandes corridas, que o peito frequentemente se me aperta em palpitações confrangedoras, que um mal de ansiedade gritante ocupa os meus dias. Os meus passos traduzem-se em respiração ofegante, as minhas noites em longas lutas contra o cansaço. Tenho uma relação frágil com a minha seratonina, invento pretextos para que o desequilíbrio se desfaça, e todo o meu tempo é passado no constante sobressalto de não saber sossegar. Custa-me o tempo que não passa. Indigna-me a mediocridade, a criança que não é incentivada a consultar o dicionário. Arrebata-me a preguiça.

17 de Outubro de 2003

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posted by saturnine | 15:56 | 0 comments

 

 

 

 

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RE: Re: Re:

Um dia aprendi que quando os olhos se abrem é para sempre. Que uma vez visitado o deserto passamos a transportá-lo connosco sob a pele. Mesmo este mundo, que não era o que os meus olhos queriam ver, agora acomoda-se à forma aberta do meu olhar. Aprendi que o buraco que tenho no peito não decresce, não diminui, não fecha, não substitui. Está presente, por vezes adormecido, por vezes silenciado, por vezes morno como a pele debaixo das camisolas de lã, outras tantas grita, lateja, ferve na sua polpa de ferida aberta. Prova-o esta minha existência constante de soluços cardíacos. Um dia, como tu, entristeci demais, e não há regresso ao antes disso. Trago sombras nos olhos, umas vezes nota-se outras não. Ainda temo o apagar da luz, não gosto de acordar cedo, não gosto de ser chamada às tarefas mundanas. Escrevo, sabendo que nenhuma palavra alcança o mundo. Sonho, sabendo que a matéria dos meus sonhos não se compara ao contorno vivo de uma ausência.


16 de Outubro de 2003

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posted by saturnine | 15:55 | 0 comments

 

 

 

 

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Re: Re:

O que sei de mim é pouco mais que os pés irremediavelmente gelados no inverno, o transtorno que é recordar um amor que se despediu no verão, a cicatriz funda abaixo do joelho esquerdo que não me deixa esquecer que em criança não quis aprender a andar de bicicleta. Tenho medo do escuro e do que nele habita, custa-me o primeiro silêncio da noite e a resignação de apagar a luz. Gosto dos cachecóis de muitas cores e de camisolas brancas em Dezembro, gosto do barulho dos comboios na estação, gosto dos gatos pequeninos quando ainda não têm senão garras e orelhas. O meu pecado mortal é a preguiça e o mal de que sofro é de intimismo excessivo. Tenho os olhos carregados de sombras e uma promessa de azul nas pálpebras cerradas. Um dia recriei-me numa figura que habita o papel, de olhos esbulhagados para o vazio.

13 de Outubro de 2003

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posted by saturnine | 15:54 | 0 comments

 

 

 

 

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Re: Re:

o canto escuro do quarto, conhece-lo bem
é sua a mesma matéria triste dos meus ombros
e eu já não reconhecia esse canto, já não sabia
que as portas portas fechadas rangem ao abrir
e lá do fundo um rumor se passeia pelas paredes
porque as mesmas sombras habitam o seu negro
quando entro
não sei de mim
mas ele sabe
esse canto
o que te assombra e fala contigo,
aquele a quem te confessas,
aquele que sabe tudo.

13 de Outubro de 2003

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posted by saturnine | 15:52 | 0 comments

 

 

 

 

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